Diário de Bordo — 06 de julho de 2026
Mente catastrófica e a Arte do escapismo
É com pesar no coração que, enquanto desço a colina, observo meu companheiro de quatro rodas coberto por poeira e folhas secas. Faz algumas semanas que o deixei nessa pequena estrada de terra que, inicialmente, parecia se estender paralela à rodovia que eu dirigia.
Na época, pensei que seria bom usá-la por um tempo, fugir do trânsito intenso e aproveitar a viagem com mais calma. Afinal, cada um deve respeitar o seu ritmo, e algumas pessoas vivem nos extremos. O fôlego do início da jornada estava se transformando numa pressão esmagadora com a proximidade do meu primeiro marco.
É por isso que, nesse registro, quero falar sobre aquilo que se planeja e aquilo que se realiza. Sobre a incapacidade de cumprir um prazo que parece apertado, por medo de matar a essência do processo. Sobre reduzir a velocidade com medo de perder a paisagem — ou usar essa desculpa para fazer mais paradas do que se precisa e entrar por caminhos que surgem à margem da estrada principal.
Caminhos que você sabe que não te levarão ao seu objetivo final. Mas seu coração pede por uma pausa, por uma rota que permita andar lentamente, sem se sentir pressionada pelos carros que passam em alta velocidade. Pois está tudo indo tão suavemente que alertas começam a disparar em todos os setores da sua mente, que tem tendências catastróficas.
No fundo, você sabe que está procurando distrações nas paisagens das colinas que resolveu escalar quando deixou o carro no acostamento. Com a desculpa de ter uma visão ampla de tudo que te cerca para se preparar para a jornada, checando o que está por vir, de não ficar só olhando para frente, de aproveitar o aprendizado da viagem.
Mas você sabe. Eu sei.
Você adia o retorno para o carro. Acende uma fogueira e diz que vai ver a noite estrelada. Diz que vai esperar para aproveitar o belo amanhecer que surgirá no horizonte no dia seguinte. Um dia a chuva está forte e a estrada não parece boa; no outro, está muito calor e seria bom aproveitar para tomar um banho de rio.
E então tudo ali te distrai. Tudo ali é algo novo. E você tenta se convencer de que há um motivo para aquilo, de que você vai adquirir algo de bom para acrescentar na sua jornada — algo que será útil para completar o seu processo. Algo que seja como nas histórias fantásticas: um detalhe que ninguém reparou, uma pedra ou um galho, uma folha ou uma flor, que serão o grande trunfo que te ajudará a vencer o último grande inimigo.
Mas é inevitável que, depois de um tempo, percebamos que só estamos adiando o retorno para a estrada. Porque é nela que os planos são testados. É nela que a sua resiliência é posta à prova. E somente ela te leva ao seu destino.
No fundo, sabemos que não existe futuro para quem se torna um observador na colina. Só poderemos ver o que os outros constroem no mundo, e como as forças da natureza o moldam. Bem como constatar como as pessoas influenciam o curso das suas próprias histórias com as suas decisões e ações, carregadas de coragem e senso de responsabilidade sobre seu destino.
E você, como observador, é apenas uma esponja. Absorve a água quando chove. Fica ressecada ao sol do meio-dia. Não há mudança. Não há progresso.
A constatação da estagnação é dolorosa. É difícil não se culpar por se permitir cair em armadilhas da própria mente. Mas essa dor é inevitável e crescente, aumentando à medida que você observa o mundo mudar sob a colina e vê que não faz parte desse ecossistema.
Enquanto o para-brisa é limpo e as janelas são abertas para possibilitar que o carro possa ser conduzido de volta à estrada com o mínimo de conforto e segurança, para buscar um posto de combustível, uma pergunta inevitavelmente martela a cabeça: devo continuar pela estrada até encontrar saída para a rodovia ou devo fazer o retorno aqui e perder alguns dias para retornar à rodovia naquele ponto inicial?
Eu não sei quanto aos outros, mas eu entro no carro, e faço o retorno para encontrar a rodovia no ponto onde eu saí dela.
Eu não tenho medo de voltar ao ponto de partida. Faço isso porque temo que essa estrada me leve ainda mais fundo, me distraia ainda mais tempo e não me leve nunca de volta à rodovia.
Dizem que, se você acha que está num beco sem saída, não deve ser teimoso: apenas dê meia-volta o quanto antes.
Agora, sentada no banco do motorista, sinto a textura do volante sob minhas mãos e reviso em minha mente como se conduz meu carro. Como se conduz minha vida. Eu sei que só preciso girar a chave que já balança na ignição, e meu corpo vai instintivamente obedecer à minha mente. Essa sensação — de que já estou há tanto tempo estacionada que não sei mais como dirigir — aos poucos vai passar.
Assim como a sensação de que não tenho o controle da minha vida, nem a capacidade de tomar boas decisões.
A verdade é que a vida é minha, e eu posso cuidar dela. Seja ela boa ou ruim, apenas vou vivê-la. E então, depois, vou eu mesma julgar se estou satisfeita ou não com o resultado das minhas decisões. Resultado este que não será definitivo, pois os cálculos nas equações sempre mudam à medida que mais números e sinais gráficos são acrescentados a eles.
E hoje, ao dar a partida e escolher fazer o retorno, acrescento mais alguns elementos ao cálculo, assim como fiz ao decidir sair da garagem e também ao entrar nessa estrada de terra.
Enquanto ainda existe vontade, encontrarei os meios e aproveitarei as oportunidades de recomeçar do ponto que a vida me permitir.
Atenciosamente
Sra. NIX
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