Diário Íntimo — 13/05/2026
Lodo: Berço da vida
Eu acredito que é difícil encontrar alguém que nunca tenha ouvido esta frase: "Se a vida te der limões, faça uma limonada."
É possível que quem cunhou essa frase, que parece saída de um poço profundo da sabedoria, não tenha percebido que uma limonada não se faz apenas com limões. É preciso água para diluir e dar volume — de preferência gelada — e açúcar para que, além de refrescante, ainda seja palatável.
Enfim, se a gente for pegar ao pé da letra essas frases prontas que parecem entregar a fórmula para resolver os problemas, veremos que boa parte dessas dicas são impraticáveis se considerarmos a nossa própria realidade.
Isso seria como dizer para alguém desempregado economizar 10% daquilo que ganha e investir, quando essa pessoa já está contando as moedas para saber se come pão ou não pela manhã.
Pensando sobre essa questão de pegar algo que já se tem e usar para provocar a mudança real, mesmo que pequena, mesmo que fosse um copo cheio de sumo de limão concentrado e sem açúcar, eu comecei a olhar na minha vida, para a matéria-prima que eu tinha à disposição, e no que eu poderia transformá-la para mudar minha condição e superar as circunstâncias que me afligem.
Assim iniciei uma jornada interior onde busquei em vários campos da minha vida — material, intelectual, espiritual — algo que eu pudesse dizer: "Farei disso um ativo e finalmente reconstruirei o meu mundo."
Foi nesse momento que me deparei com a constatação de algo tão familiar que era como o ar: sempre presente, mas se você não falar nele, ninguém vai lembrar que ele está lá. E eu gostaria de dividir com você. Talvez você possa me entender ou até se identificar.
Aparentemente, eu não nasci com: O MAPA. Isso mesmo: O MAPA. Se você está perdido na vida, deve me entender: aparentemente, algumas pessoas nasceram com O MAPA e têm A BÚSSOLA INTERNA que as guia para o seu destino vitorioso. Pelo menos essa é a impressão que alguém que está perdido e derrotado tem: a de que todos chegaram a esta terra com O MAPA e com A BÚSSOLA, menos ele. E sabem para onde ir. Sabem o que fazer. Sabem sonhar, projetar e conquistar.
Esse parecia o meu caso: eu não nasci equipada para viver a minha vida. E embora tivesse recebido muitos elogios relacionados à minha capacidade intelectual e resolução de problemas, ainda assim eu parecia não enxergar O CAMINHO — aquele caminho que me levaria ao meu destino.
Certa vez, conversei com uma pessoa muito próxima sobre as decisões da vida, sobre como temos que escolher um caminho e seguir. Na ocasião, eu lhe disse: "Quando estamos perdidos num lugar tão escuro que não importa para onde ande, não conseguimos encontrar a saída. Depois do desgaste físico e mental, você acaba desistindo de caminhar e fica parado. Não é como se você estivesse trancado num quarto escuro procurando uma porta, tateando as paredes. É simplesmente estar num local tão amplo e escuro que você caminha e corre em diversas direções, seguindo ruídos e ecos que você não sabe se são reais ou fruto da sua mente, que está tão perturbada pelo silêncio do vazio que passa a simular sons que deveriam existir. Ali não é possível ver nada, nem a si mesmo. Só se tem consciência da sua existência."
E essa pessoa me disse: "Mas mesmo assim precisamos continuar."
Para mim, isso era uma não resposta. Continuar para onde? Eu me perguntava. Geralmente, nesses momentos, ouvimos coisas como "você tem que continuar lutando", "continuar acreditando".
Assim, na continuação dessa conversa, eu disse: "Se apenas fosse possível ver um ponto de luz, isso já seria maravilhoso. Pelo menos haveria um ponto de referência, uma esperança. Por mais que a caminhada fosse longa, ainda haveria onde chegar."
Continuar... Lutar... Acreditar...
Para onde?... Com o quê ?... Em quê?...
Faltava-me propósito, ferramentas e sonhos. Talvez a solução fosse ir fazendo algo até encontrar algo de que se goste. Dizem que o movimento oxigena as águas e revitaliza rios mortos.
Foi pensando sobre isso que fui verificar as minhas ferramentas: as qualidades e tudo aquilo que eu teria para oferecer ao mundo — para que ele me aceitasse e colaborasse comigo, para que eu pudesse experimentar o sabor das coisas simples relativas à felicidade e à dignidade — que eu vi que não tinha nada. Estava tudo podre.
Me vi submersa até a cintura numa região pantanosa, puro lodo.
Essa é a minha vida.
As coisas que eu tinha, com os anos de abandono, apodreceram. Eu digo que eram as coisas que eu tinha porque a vida não nasce podre. Quando alguém nasce, vem carregado de esperanças, sonhos e emoções, e todas as outras coisas que são inerentes ao ser humano. Mas os anos de frustração, de negligência, cobram seu preço. E um dia é assim que podemos nos encontrar. Alguns se encontrarão num deserto. Outros, numa geleira. E haverá aqueles que estarão à deriva no mar.
Mas eu me encontrei no pântano. Para onde quer que eu olhasse, o horizonte só mostrava lodo.
Durante um tempo, eu me desesperei. Depois, eu simplesmente me resignei e evitei olhar. Me tranquei dentro de mim. Fechei meus olhos com determinação, mas, infelizmente, meus outros sentidos — que não poderiam ser trancados — foram atacados. E depois de alguns anos, eu não tive escolha a não ser, começar a me mover por aquele lugar inóspito. Porque morrer pela passividade é um processo lento, e é mais desesperador do que eu imaginava.
Então aconteceu comigo o mesmo que aconteceu com o autor da frase "Se a vida te der limões, faça uma limonada". Eu me perguntei: o que eu faria com o que eu tinha? O que eu faria com tudo aquilo? O que não me faltava era lodo. E espaço.
E eu percebi uma coisa que me surpreendeu. Não foi uma descoberta grandiosa. Foi apenas que minha mente me deu acesso ao que eu já sabia.
O lodo é matéria em decomposição. É uma mistura muito rica de tudo aquilo que existia antes. Ele é um berço da vida.
Havia vida ali, mas tão pequena e insignificante que eu não conseguia, no meu período de luto existencial, enxergá-la, acolhê-la e valorizá-la.
Mas aqui estou eu, acolhendo essa vida vulgar que meu lodo nutriu. No mundo que eu reconheço como hostil à minha existência, ofereço uma frase que não é uma tentativa de apresentar uma solução universal para a existência de todos.
Afinal, a vida não dá limões para todo mundo. E nem todo mundo se encontra num pântano como eu.
Mas, quem sabe, assim como aquela frase que não servia para mim, esta frase que não serve para você possa iluminar o seu pensamento, para que você encontre a sua verdadeira instrução para a vida. Para que você chegue àquela resposta que ninguém pode dar, mas que você já carrega — apenas ainda não conseguiu formular a pergunta certa.
Então, humildemente, eu coloco estas palavras no mundo, com a reverência de quem entende que cada um está no seu processo.
"Se a sua vida é lodo, plante sementes de lótus."
— Sra. NIX
Por fim, depois de trazer à luz esta declaração, eu me perguntei: eu só tenho lodo. E sementes não nascem do nada. Onde vou encontrar as minhas sementes?
E cheguei à conclusão: eu sou a semente.
O meu ser é a semente.
Eu tenho que me permitir submergir neste pântano que é a minha vida, sem medo de vivê-la ou de me afogar nela.
De mim brotará a lótus. Eu também doarei meus nutrientes para engrossar essa mistura rejeitada por sentidos exigentes. Para me unir à minha vida sem reservas.
Em certa ocasião, ouvi um religioso falar: "Para a planta nascer, a semente precisa morrer."
E eu digo: viver é se oferecer em sacrifício à vida.
E essas poucas palavras sinceras são uma pequena flor que desabrochou para se oferecer ao mundo.
Esperançosamente,
Sra. NIX 🌙✨
🖤🖤🖤
📌 ATENÇÃO
✨ Ao comprar pelos links das páginas deste blog, você apoia meu trabalho como afiliada.
🛍️ E para levar um pouco desse universo para o seu dia a dia, conheça também a minha curadoria de itens criativos na vitrine Recomendados da Sra. NIX na Shopee
📖 Visite também a Estante da Sra. NIX, com livros que me transformaram na sessão Estante da Sra. NIX
💜 Se o conteúdo deste Blog tocou você de alguma forma, considere apoiar este espaço com qualquer valor pelo Pix: apoiar.sra.nix@gmail.com
Nenhum comentário:
Postar um comentário