Terminar um livro é uma coisa. Apresentá-lo ao mundo é outra completamente diferente.
Enquanto produzia a estrutura e o conteúdo de Aonde Anda Você, meu dark romance psicológico, comecei a me preocupar com um detalhe que, diante do volume de capítulos que iam sendo escritos e da profundidade dos personagens, parecia pequeno. Pequeno não tinha nada. Era a sinopse.
Quando se decide publicar uma obra, é necessário pensar no público-alvo ao qual ela se destina. Não que uma obra deva se limitar a um único público. Mas temos que considerar que determinados temas são mais interessantes para alguns leitores do que para outros. Não podemos ser ingênuos de achar que estamos criando uma obra universal, que vai contemplar as necessidades psicológicas e emocionais de todos os leitores.
Considerar o gênero, a idade, o estilo, os assuntos abordados, o ponto de vista escolhido e outros numerosos detalhes relacionados à obra vai ajudar a traçar que tipo de público se interessaria por esse livro. E, depois, escolher a melhor linguagem para apresentar a esse público.
A sinopse cumpre esse papel: permite que o leitor tenha um conjunto considerável de informações necessárias para tomar a decisão consciente de iniciar a leitura ou não.
É um direito do leitor rejeitar total ou parcialmente uma obra mesmo sem lê-la. Afinal, o que não faltam são livros escritos no mundo, e ele tem que escolher como vai investir o seu tempo e a sua atenção de forma consciente.
Acho que uma das premissas iniciais de uma sinopse é a ética. Como leitora, eu sei o quanto é frustrante encontrar uma sinopse instigante, mas depois de ter investido meu tempo para conhecer aquela história, descobrir que caí numa armadilha de marketing.
Durante a minha jornada, meu principal aprendizado tem sido: respeitar e confiar na inteligência do leitor. Não lesando a sua consciência.
Por isso me vi numa bifurcação nesse momento. Eu tinha que criar a descrição do conteúdo do meu livro. Meu livro é um produto. Embora contenha meus sentimentos e seja fruto de horas de dedicação nas quais as minhas emoções e imaginação foram levadas ao limite, ainda é um produto. Ele precisa ser apresentado numa vitrine.
Fiquei entre a sinopse que apresenta o produto — a técnica, a que vende — e a sinopse que apresenta a alma dos personagens — a que comove, mas que na sua essência também pode confundir aqueles que não estão habituados a um determinado tipo de linguagem. Portanto, é ineficiente como descrição do produto. Não vende.
Sou uma pessoa pragmática, e preciso pagar as contas.
Escrevo com a emoção de quem tem muitos boletos acumulados. Então é claro que cada palavra contém um pedaço da minha alma: frustrada, incrédula e irônica.
Mas, embora eu tenha que decidir entre uma sinopse ou outra na hora de publicar a minha obra num site ou numa plataforma de leitura, aqui nesse espaço eu posso me permitir ser gananciosa e usar as duas.
Este texto é sobre isso. Sobre o meu dilema e sobre onde encontrei a solução.
A primeira, que chamo de sinopse comercial, foi feita para as plataformas. É clara, direta, pensada para que qualquer leitor entenda rapidamente do que se trata a história e decida se quer embarcar nela.
A segunda, que chamo de sinopse orgânica, nasceu de outro lugar. Ela não foi escrita para vender. Foi escrita para capturar a alma do livro. O tom. A fragmentação. A voz do protagonista masculino ecoando dentro da própria cabeça. É a sinopse que eu leria para mim mesma.
Trata-se de querer que a porta de entrada esteja aberta a todos — não apenas a quem já enxerga o mundo como eu.
A solução final: criei este blog.
Aqui é uma vitrine e também um diário. Ideias que não são comerciais também podem ver a luz. O fruto da minha imaginação não se perde no limbo do aplicativo de bloco de notas.
Quem sabe essa minha reflexão não pode contribuir, tanto quanto a minha obra completa, para alguém que também sofre com os dilemas das escolhas difíceis nos seus processos criativos.
Atenciosamente,
Sra. NIX
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